Escolhendo um Cachorro: o que NÃO fazer

Como vocês já devem saber, eu atendo algumas pessoas com Consultas Comportamentais online. Há alguns meses comecei a conversar com a Yatta, uma moça que me seguia no Instagram, tem uma Border Collie fofíssima, a Milca, e mora nos Estados Unidos. Trocávamos algumas ideias sobre Enriquecimento Ambiental para ajudá-la a manter a Milca mais ocupada e com menos tempo ocioso (sinônimo de bagunça no apartamento!). Até que um dia a Yatta, muito triste, me pediu se poderíamos conversar pelo Skype, pois ela estava com MUITAS dificuldades com a Milca e não sabia mais o que fazer.

Nossa conversa aquela noite foi bem longa, mas creio que bastante esclarecedora. E desde então já nos falamos mais algumas vezes pelo Skype e trocamos várias mensagens pelo WhatsApp. Aos poucos a Yatta foi percebendo que não é nada fácil ter um cão de trabalho e que ela precisaria se dedicar ainda mais à sua peluda. Mas, pelo que tenho acompanhado dessa mudança de postura, tem valido super a pena. E, entre esses nossos vários contatos, surgiu a ideia da Yatta escrever um post aqui para o Blog, sobre como ela encara, hoje, a presença da Milca na vida dela.

Se ela tivesse recebido mais orientações profissionais antes da compra, será que teria escolhido esta raça? Será que era o momento certo da vida deles para adquirirem um cão? E será que eles estavam prontos para educa-lo, ou a expectativa deles sob o cão “da raça mais inteligente do mundo” era muito alta?

Acompanhe essa história linda, que ainda vai dar muito o que falar,  nas palavras da própria Yatta. E, ao final do texto, conheça ela e a Milca, minhas queridas que um dia espero conhecer pessoalmente! Difícil foi escolher entre tantas fotos lindas!

“Comecei a admirar a Karol através do instagram dela onde ela mostra seus alunos e fala um pouco sobre o que está treinando com cada um. Estava sem saber o que fazer com minha cadela, e um dia chamei a Karol para conversar sobre a Milca. A partir de então ela vem me ensinando muitas coisas, e a gente conversou sobre eu escrever esse post para ajudar outras pessoas antes delas se encontrarem na minha situação. Então lá vai:

Eu queria um cachorro já fazia um tempo, mas adiava porque achava que não era o momento. De repente conheci uma filhote de dois meses que era a coisa mais linda! Ela veio de uma criadora de fundo de quintal que se desfez da ninhada com 30 dias por problemas pessoais. Uma colega ficou com essa filhote e ia dar para seu genro mas ele mudou de idéia. Então durante esse período ela estava em uma casa sempre presa, afastada dos outros cães pois estes estavam com pulgas. Como essa colega não estava conseguindo cuidar da filhote resolveu me dar ela e eu aceitei.

Só de ler essa história já da pra perceber que essa filhote não teve o tempo necessário de socialização com a mãe e irmãos, pois não deveria ter sido separada deles antes dos 60 dias de vida. Depois disso foi para uma pessoa que não tinha tempo para fazer a socialização dela e nem tempo para atender suas necessidades básicas. Então já seria um animal bem mais difícil de ser socializado e desenvolver um bom relacionamento com outros cães e pessoas. Isso já devia ter sido um ponto importante para eu considerar antes de adotar essa cadelinha, pois eu não era uma tutora experiente.

Para completar, essa garotinha era uma Border Collie das mais ativas! Muitos, como eu na época, conhecem essa raça como o cão mais inteligente do mundo. Hoje eu sei que essa inteligência deles nada mais é do que uma vontade SEM FIM de trabalhar e se manterem ocupados. Na época não imaginava (e nem pesquisei o suficiente) o quanto ela ia precisar de estímulo mental e exercício físico. Se tivesse lido mais, conversado com quem tem Border Collies ou, melhor ainda, tivesse entrado em contato com um adestrador comportamentalista para pedir orientações, teria descoberto que o nível de energia dela não é nada compatível com o meu! Sou uma pessoa estilo Netflix, trabalho boa parte do dia e quando chego em casa quero mesmo é relaxar! A Milca é ligada no 220V, sempre querendo fazer alguma coisa.

Hoje vejo que as necessidades dela (tanto por ser um Border Collie como pelo passado dela) eram além da minha experiência. Se eu tivesse mais informação na época teria feito diferente, provavelmente teria escolhido um cão que se adequasse mais ao meu perfil e que eu estivesse mais preparada para educar. Mas agora que escolhi a Milca não tem volta. Adaptei e ainda adapto minha vida por conta dela, sempre tentando melhorar nosso relacionamento e tentnado suprir as necessidades dela. Confesso que é um enorme desafio e muitas vezes não consigo (daí peço o socorro da Karol!!).

Resumindo, antes de se apaixonar por um filhote e resolver adotar ou comprar um, tem que escolher com calma, cuidado e de preferência com a ajuda de alguém que entenda de comportamento canino. Então, se você ainda estiver escolhendo qual é o cãozinho ideal para você pare e pense MUITO antes de levar esse animal que vai viver em média 15 anos para participar da sua vida!”

Yatta Linhares Boakari

Aproveito para agradecer a coragem da Yatta em admitir suas dificuldades com a Milca e ter buscado ajuda de um profissional para orientá-la, em mostrar para as pessoas que a vida com um cão nem sempre é um mar de rosas, muito menos quando escolhemos uma raça tão diferente do nosso perfil familiar. Mas, principalmente, por toda a dedicação que ela tem com a Milca, para melhorar a qualidade de vida dela e a relação das duas!