Pode Abraçar sem Medo

Confortar não é Reforçar o Medo

“Você não deve fazer carinho ou dar petiscos ao seu cão quando ele estiver com medo, pois assim você estará reforçando o medo”

Isso é um mito. Vou te explicar o porque.

Pense na seguinte situação: Você está no seu carro, parado no semáforo, quando um ladrão, armado, aparece na sua janela, e rouba seu celular e sua carteira. Você volta para casa assustado, nervoso, conta o ocorrido para a sua namorada e ela tenta te consolar, faz um chá, te abraça ou faz uma massagem…. Você acha que estas atitudes podem te deixar com mais medo de ser assaltado novamente?

Ou ainda, imagine que você chega em casa após o assalto, chateado, conta o ocorrido para a sua namorada e ela simplesmente diz “puxa, que chato”, e te dá as costas, não faz mais nada a respeito…. Um companheiro que não me oferece o menor suporte emocional quando eu preciso merece, no mínimo, ser um EX-namorado!

Outro exemplo, que eu já citei em algum outro post, mencionando a brincadeira do fusca azul: imagine que, ao invés de levar um “peteleco”, você recebesse uma nota de cem reais cada vez que avistasse um fusca azul. Você não passaria a adorar fuscas azuis? Além disso, depois de algumas repetições, você, por antecipação, já estenderia sua mão ao avistar o bólido, uma vez que aprendeu que fuscas azuis predizem dinheiro. Este processo te fez ter medo de fuscas azuis, ou foi justamente o contrário?

Mas o contrário pode ser verdadeiro também, é possível fazer um cão passar a ter medo de um estímulo que antes era indiferente para ele. Pense: talvez um peteleco não seja o suficiente para você ter medo de um fusca azul, mas se você tomasse um choque bem forte cada vez que visse um, é bem possível que você passe a ter muita aversão a este carro. Por isso que os comportamentalistas não indicam o uso de aversivos como parte do treinamento de um cão. O primeiro estudo sobre isso foi feito em 1920 e hoje já se sabe muito bem que podemos criar associações negativas (fusca azul = dor) e gerar respostas agressivas nos cães – e por que não em humanos também. Se você pudesse prevenir o choque, não o faria?

Quando falamos em reforço, falamos em reforçar um comportamento. O medo não é um comportamento, é uma emoção. O comportamento é uma resposta voluntária, uma emoção, não. Medo é o que você sente, comportamento é o que você faz. E cães não são capazes de fingir emoções. Se eles demonstram que estão com medo, é porque realmente estão sentindo medo. Eles não conseguem, por exemplo, acelerar seus batimentos cardíacos, dilatar suas pupilas e “fingir” outras reações que demonstram que eles estão com medo.

Ou seja, você pode até, através de associações negativas, aumentar o medo de um cão a um determinado estímulo, por exemplo: dar uma bronca ou um tranco na guia de um cachorro que tem medo de crianças cada vez que ele late para elas. Mas não consegue o mesmo efeito (aumentar o medo) usando carinho ou petiscos. Infelizmente, apenas confortar seu cão quando ele estiver com medo também não é suficiente para fazer o seu cão PERDER o medo daquele estímulo (para isso existem técnicas como dessensibilização, contra condicionamento, que devem ser praticadas ao longo do ano todo e não apenas “na hora H”), mas, você estará mostrando ao seu cão que ele pode contar com o seu apoio quando ele precisar, assim como sabemos que podemos encontrar o suporte emocional necessário no nosso parceiro quando precisamos dele.

Portanto, se na hora da virada do ano seu cão estiver com medo dos fogos e te procurar, com medo, abrace-o! Faça carinho, brinque com ele, tente distraí-lo com um petisco gostoso! Apenas não fique esmagando-o, quer dizer, abraçando-o, caso não seja o que ele deseja. A melhor coisa a fazer e prestar atenção no seu amigão: se ele quiser o seu colo, dê colo. Se ele estiver procurando um “esconderijo”, permita que ele se esconda num local onde ele se sinta confortável, vale até o seu armário, se for o caso!

Percebeu que comportamento não é tão simples quanto parece? Se você precisa de ajuda com o seu peludo, procure um bom comportamentalista para te ajudar. Provavelmente ele vai te mostrar que dá para melhorar aspectos do comportamento do seu peludo que você nem imaginava. E assim, vocês dois serão mais felizes!

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